sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"1OO IDÉIAS" DE PAULO SAYEG





PAULO SAYEG


"100 IDÉIAS"
DESENHISTA


No dia 20/10/2009, o artista plástico, famoso por seus desenhos realistas fantásticos, Paulo Sayeg, me recebeu para uma entrevista. Ele inaugurava sua exposição no Escritório de Arte Augusta 664.
Eu, ao saber que me concederia a entrevista rumei para lá em linha direta de Arujá x Augusta 664. Não foi brincadeira, naquele dia o transito estava doido. A Marginal do Tiete marginalizou minhas pretensões de chegar lá, mas uma vez decidido, não seria esta a barreira. Mesmo muito atrasado fui muito bem recebido pelo mestre Sayeg.




Meu! Tenho trinta anos de estrada, nunca tive vicio, não bebi, mas veja como são a coisas: eu desenho todos os dias, o dia inteiro, desde menino. Minha vida sempre foi o desenho. Até nos altos e baixos. Eu consegui reconstruir minha vida, com os mencionados desenhos. Hoje inauguro exposição intitulada “100 idéias” que vai até vinte de novembro. Dás onze às dezessete horas. Deu trabalho cara!
Descontraído e poeticamente irreverente, começa a narrar sua vida.
Há trinta anos atrás eu fiz à mesma coisa: inaugurei minha primeira exposição na Galeria Pitanga do Amparo. Lembro-me que naquela época eu freqüentava a Galeria Bonfiglioli, na Rua Augusta e em uma dessas visitas eu estava ajudando na montagem da exposição de Takashi Fukushima e conversando com ele, me perguntou por que eu não me profissionalizava como artista. Ele me apresentou ao galerista Pitanga. Foi uma surpresa, pois ele me comprou uma pasta cheia de desenhos. Esse material serviu para o galerista Pitanga montar a mostra.
Todo garoto desenha, eu era assim também. Apenas eu havia descoberto que poderia contar minha história e de minhas convivências desenhando. Eu lia muito e as ilustrações me mostravam a estética plástica da literatura, me satisfaziam à curiosidade que eu tinha de conhecer a imagem daquelas histórias.
Passei a desenhar, é minha proposta. Para mim é o mesmo que escrever. É realista e todos que conheci estão lá.
No inicio eu não esperava virar artista ou até viver da arte, não estava em meus planos.
Acho que minha arte é mesmo, viver do que gosto. Desenhar é a tradução.
Isto é circunstancia: não estou mais na imprensa. Parei as exposições. Não sou egocêntrico, mas não perdi minha notoriedade.
Eu tenho disciplina para produzir, desenho todos os dias: de manhã até a noite, tem horário para o almoço, mas só paro para isso.
Já à noite em casa com minha família, enquanto convivo eu também faço rabiscos, estou sempre com a prancheta produzindo.
O artista tem sempre a tendência de aumentar sua carga horária, temos que atacar o problema da sobrevivência. No entanto primo pela qualidade de meus trabalhos, eu dou o melhor de mim. Tenho compromisso com meus colecionadores, são meu publico, trato-os como meus sócios.
Vamos examinar as circunstancias que viveu inserido, o artista Van Gogh, no século dezenove. Nós não conhecemos muito bem sua verdadeira história, mas por ele ser um gênio, vale a pena.
Sua cunhada, esposa de seu irmão Thel, era negociante de arte, ela e o marido não vendiam o trabalho do Van Gogh, mas vendiam trabalhos de outros artistas. Ela tinha galeria e não era ignorante. Guardaram grande quantidade de obras desse autor. Depois da morte do cunhado e de seu marido, Susane lançou a biografia de Van Gogh que o tornou muito famoso e terminou por vender todo o acervo de obras dele.
Eram as circunstancias, já havia morrido quando suas obras passaram a ganhar interesse.


Minhas imagens vêm de minha memória. Minha visão de futuro é otimista, vejo que tudo vai dar certo. No presente a gente luta.
O mestre Paulo Sayeg passa agora a dar entrevista falando por mim: Hoje você acordou, tomou o café da manhã com a família, pensou nas contas, viu que não tinha dinheiro no banco, lamentou, saiu porque tinha que vir para a exposição do gordo. No caminho olhou o transito, falou e xingou. Viu as mulheres bonitas e pensou: seduzi-las todas. Lembrou das contas, pensou nos compromissos, nos horários, nos numerários e viu que não ia dar. Aceitou as circunstâncias e ficou feliz com desenhos da exposição.
Gente! O Paulo é um vidente, como ele soube de tudo? Eu não falei nada!
Olha Líbano, agora sou pai de família, estou curtindo muito isso, adoro estar com minha filha e minha esposa, eu amo muito as duas, minha mulher é minha cara metade. Bonita, inteligente, estou feliz. Não estou rico, mas estou bem com o resultado de meu trabalho.
Gosto de ler e tenho cultura, não tenho um projeto artístico, convivo bem com os artistas, enfim todos nós encontramos nossas maneiras de ir vivendo e a minha é essa: viver tendo a arte como meu ganha pão.
Aldemir Martins, Takashi, Grassmann, Gutlich, Gilberto Salvador, Granato e outros que me ensinaram muito inclusive a viver da arte. Eu trago influência de todos esses artistas. Não tenho vergonha de falar, não posso ter visão reduzida, meu publico exige um trabalho; realmente autentico, de valor e eterno. Desenho, a gente aprende de todo jeito. Eu gosto de desenhar, tanto que minha pintura é um desenho sobre a tela.
Nada me em a cabeça alem do desenho. Eu nasci só artista.
Enquanto vivo do desenho eu o vejo como uma entidade, como uma criatura viva. Depois de pronto não é mais assunto meu, ele ganha vida própria. Enquanto eu trabalho, olho, critico e o concebo depois de pronto! Já era.
Se as pessoas virem alguma genialidade nos trabalhos, ótimo, mas é só meu trabalho, é assim que eu vejo.
Eu me misturo aos desenhistas e os vejo como minha família. Os desenhos são a nossa comida, a nossa ceia.


Eu também tenho ego, mas como sou artista vejo isso como coisa normal.
Muitas vezes eu fico ansioso para ver um determinado trabalho pronto. Depois o único caminho é começar outro. Enquanto executo, eu curto.

Depois que abro mão e só o admiro como mero expectador.

Eu tive sorte com meus amigos, veja o Peter Hiller, eu adoro esse cara. Não tenho como pagar pela amizade e pelos favores. Esse é um verdadeiro ser humano. Eu já estive a beira da pobreza absoluta, vi as pessoas puxarem o tapete. Mesmo assim me sinto felizardo por estar inserido em um contexto de privilegiados.
Com já disse antes eu amo minha família, minha esposa e minha filha Luiza.
Meu irmão eu tenho um vidão.
Se um dia a Luiza, que já me perguntou se eu espero vê-la artista, se ela realmente o desejar, eu vou ficar muito feliz. Mas na verdade espero que ela seja feliz sendo o que ela desejar. Sendo ela mesma.
Foi mesmo o desenho que me deu tudo isso, espero que continue sendo sempre assim.

LÍBANO MONTESANTI CALIL ATALLAH


A REVISTA É UM ORGÃO DA
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Líbano Montesanti Calil Atallah